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Pé diabético: cuidados diários, sinais de alerta e como prevenir feridas

Homem idoso examinando a sola do pé com um espelho de mão

Imagem ilustrativa: olhar os pés todos os dias é o cuidado mais simples e mais importante.

Quem tem diabetes ouve muito falar de glicemia, dieta e remédios. Mas existe um cuidado que costuma ficar esquecido e que pode evitar uma das complicações mais sérias da doença: olhar os pés todos os dias.

O chamado pé diabético é um conjunto de alterações nos pés causadas pelo diabetes, como perda de sensibilidade, má circulação e deformidades. Com o tempo, uma pequena bolha ou rachadura pode virar uma ferida difícil de cicatrizar. No Brasil, o diabetes é a principal causa de amputações que não são provocadas por acidentes.

A boa notícia é que a maior parte dessas complicações pode ser prevenida com hábitos simples. Neste guia, você vai entender o que é o pé diabético, quais são os sinais de alerta e qual é a rotina de cuidados recomendada pela Sociedade Brasileira de Diabetes e pelo Ministério da Saúde.

Resumo rápido: examine os pés todos os dias, nunca ande descalço, seque bem entre os dedos, hidrate a pele (mas não entre os dedos), use meias claras sem costura e calçados confortáveis e fechados. Faça o exame dos pés com um profissional pelo menos uma vez por ano e procure atendimento diante de qualquer ferida.

O que é pé diabético

Pé diabético é o nome dado às complicações que o diabetes pode causar nos pés. Elas surgem principalmente por dois motivos.

O primeiro é a neuropatia diabética. A glicose alta por muito tempo danifica os nervos, e a pessoa vai perdendo a sensibilidade. Ela pode pisar em uma pedrinha, se queimar com água quente ou usar um sapato apertado sem sentir dor. Sem a dor como aviso, o machucado passa despercebido.

O segundo é a doença arterial periférica, que diminui a circulação nas pernas e nos pés. Com menos sangue chegando, qualquer ferida demora mais para cicatrizar e fica mais exposta a infecções.

Quando esses dois problemas se somam, uma lesão pequena pode evoluir rápido. Por isso, no pé diabético, prevenir é muito mais fácil do que tratar.

Por que esse assunto é tão sério

Os números ajudam a entender a importância da prevenção:

  • Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, entre 19% e 34% das pessoas com diabetes terão uma úlcera nos pés ao longo da vida.
  • Depois que uma ferida cicatriza, a chance de ela voltar é alta: cerca de 40% em um ano e 65% em três anos.
  • Dados do Ministério da Saúde mostram que o SUS registrou 10.168 amputações de membros inferiores em pessoas com diabetes em 2022, o que dá quase 28 por dia.

Esses números não existem para assustar, e sim para mostrar que a rotina de cuidados faz diferença real. Muitas dessas amputações começam com uma lesão simples que poderia ter sido vista e tratada a tempo.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda

Ao examinar os pés, fique atento a qualquer uma destas alterações:

  • cortes, bolhas, rachaduras ou feridas, mesmo pequenas;
  • vermelhidão, inchaço ou uma área mais quente que o resto do pé;
  • mudança de cor da pele (arroxeada, muito pálida ou escurecida);
  • calos, unhas encravadas, unhas grossas ou com micose;
  • secreção ou manchas na meia;
  • formigamento, dormência, sensação de queimação ou de "pé de algodão";
  • pés muito frios ou dor nas pernas ao caminhar.
Atenção: se encontrar uma ferida, não tente tratar sozinho com receitas caseiras. Lave com água e sabão neutro, cubra com gaze limpa e procure a Unidade Básica de Saúde, seu médico ou um podólogo o quanto antes. No pé diabético, tempo faz diferença.

Rotina diária de cuidados com o pé diabético

Os cuidados a seguir são recomendados por materiais oficiais de saúde e pela Sociedade Brasileira de Diabetes. Leva poucos minutos por dia e pode ser feito no banho e na hora de dormir.

1. Examine os pés todos os dias

Olhe o peito do pé, a sola, o calcanhar e o espaço entre os dedos. Faça isso em um lugar bem iluminado, de preferência na mesma hora todos os dias, para virar hábito.

Se você não consegue ver a sola com facilidade, use um espelho apoiado no chão ou um espelho de mão. Quem tem dificuldade de visão ou de movimento pode pedir ajuda a um familiar.

Espelho grande de mão dupla face, com aumento de 2x

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Ajuda a enxergar a sola e o calcanhar sem precisar torcer o corpo. O lado com aumento facilita ver pequenas rachaduras.

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2. Lave os pés com água morna ou fria e seque muito bem

Lave os pés todos os dias com sabonete neutro. A água deve estar fria ou em temperatura ambiente. Como a sensibilidade pode estar diminuída, teste a temperatura com o cotovelo, nunca com o pé.

Não deixe os pés de molho, porque isso resseca e amolece a pele, facilitando feridas. Depois, seque com uma toalha macia e limpa, principalmente entre os dedos, onde a umidade favorece micoses.

Pessoa secando entre os dedos do pé com toalha branca

Imagem ilustrativa: a umidade entre os dedos favorece micoses e rachaduras.

3. Hidrate a pele, mas nunca entre os dedos

O diabetes deixa a pele dos pés mais seca, e a pele seca racha com facilidade. Passe um creme hidratante no peito do pé, na sola e no calcanhar, todos os dias.

Os cremes com ureia em torno de 10% são bastante usados para pés ressecados. Concentrações muito altas, como 40% ou 60%, têm ação esfoliante e só devem ser usadas com orientação profissional. Evite passar creme entre os dedos.

Mãos aplicando creme hidratante no calcanhar

Imagem ilustrativa: hidrate a sola, o peito do pé e o calcanhar.

Creme restaurador para os pés Cetaphil Pro Ureia 10%

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Sem fragrância, indicado para pele seca dos pés. Aplique no peito e na sola, nunca entre os dedos.

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4. Corte as unhas do jeito certo

Corte as unhas em linha reta, sem deixá-las muito curtas e sem arredondar os cantos. Não retire a cutícula e não use objetos pontiagudos para limpar os cantos.

Quem tem perda de sensibilidade, visão fraca, unhas grossas ou encravadas deve deixar esse cuidado com um podólogo. Calos e calosidades também não devem ser cortados em casa nem tratados com lixas agressivas ou calicidas.

5. Nunca ande descalço

Nem dentro de casa, nem na areia, nem em piso quente. Andar descalço é uma das causas mais comuns de ferimentos em quem tem perda de sensibilidade. Pela mesma razão, não use bolsa de água quente nem aquecedor perto dos pés.

6. Use meias claras, sem costura e que não apertem

Prefira meias de algodão, brancas ou claras, sem costura e sem elástico apertado. A cor clara ajuda a perceber logo se saiu alguma secreção ou sangue de uma ferida que você não sentiu. Troque as meias todos os dias.

Par de meias brancas sem costura ao lado de tênis confortável

Imagem ilustrativa: meias claras e calçados fechados e macios protegem os pés.

Kit de meias Selene para diabéticos, brancas e sem costura

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Cano longo, sem costura e na cor branca, que ajuda a perceber qualquer mancha de secreção ou sangue.

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Kit 6 pares de meias Lupo sem punho para diabéticos

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Modelo que não aperta a perna, com cores claras no kit. Boa opção para o uso diário e para revezar os pares.

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7. Escolha calçados confortáveis e olhe dentro deles antes de calçar

O calçado ideal é fechado, macio, largo na frente, com salto de no máximo 4 cm e sem costuras por dentro. Evite sandálias de dedo (de cabresto), bico fino, salto alto e materiais duros ou de plástico.

Algumas dicas práticas:

  • compre sapatos no fim da tarde, quando os pés estão mais inchados;
  • use o sapato novo aos poucos, por cerca de uma hora por dia, até amaciar;
  • antes de calçar, passe a mão por dentro do sapato para ver se há pedrinhas, pregos ou costuras soltas;
  • deixe os sapatos tomarem sol de vez em quando para evitar fungos.
Mão verificando o interior do sapato antes de calçar

Imagem ilustrativa: uma pedrinha dentro do sapato pode causar uma ferida sem que a pessoa perceba.

Para quem já foi classificado como pé de risco, a Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda calçado terapêutico adaptado ao formato do pé. No SUS, calçados terapêuticos e palmilhas podem ser solicitados mediante relatório de um profissional de saúde, com encaminhamento pela Unidade Básica de Saúde. Para quem ainda não tem essa indicação, um tênis de conforto bem ajustado já ajuda bastante no dia a dia.

Tênis de conforto para diabéticos, com fechamento em velcro

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Fechado, com regulagem no velcro e calce fácil. Para quem já tem pé de risco, o calçado deve ser avaliado pelo profissional.

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8. Mantenha a glicemia sob controle

Controlar o açúcar no sangue é o que protege os nervos e os vasos dos pés a longo prazo. Siga o tratamento indicado pelo seu médico, faça as medições combinadas e não pule as consultas. Parar de fumar também melhora a circulação nas pernas.

Mulher medindo a glicemia com glicosímetro na mesa da cozinha

Imagem ilustrativa: a glicemia controlada protege os nervos e a circulação dos pés.

Monitorar a temperatura dos pés: para quem é indicado

Uma inflamação no pé costuma deixar a região mais quente antes mesmo de aparecer uma ferida. Por isso, a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda que pessoas com risco moderado ou alto (categorias 2 e 3) meçam a temperatura dos pés diariamente com um termômetro infravermelho.

A orientação é comparar o mesmo ponto nos dois pés. Se houver uma diferença de cerca de 2 °C entre um pé e outro por dois dias seguidos, é hora de procurar o profissional que acompanha você.

Esse cuidado não substitui o exame visual e deve ser feito com orientação do seu médico ou podólogo, que vai indicar os pontos certos de medição.

Termômetro infravermelho sem contato G-Tech Easy Sensor

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Possui modo de medição de superfície. Use apenas se o seu médico ou podólogo orientar o monitoramento da temperatura dos pés.

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O exame dos pés no consultório

Além do autocuidado, todo paciente com diabetes deve ter os pés avaliados por um profissional de saúde pelo menos uma vez por ano. Em cada consulta, tire os sapatos e as meias e peça para examinarem seus pés.

Podóloga testando a sensibilidade da sola do pé com monofilamento

Imagem ilustrativa: o teste com monofilamento de 10 g avalia a sensibilidade protetora dos pés.

Um dos testes mais usados é o do monofilamento de 10 gramas. É um fio de náilon que o profissional encosta em pontos da sola para saber se a pessoa ainda sente a pressão. Também são avaliados os pulsos dos pés, a pele, as unhas, as deformidades e o calçado.

Com esse exame, o paciente é classificado em uma categoria de risco, que define com que frequência ele deve voltar:

Categoria de riscoO que significaFrequência da avaliação
0 – muito baixoSem perda de sensibilidade e sem doença arterial1 vez por ano
1 – baixoPerda de sensibilidade ou doença arterialA cada 6 a 12 meses
2 – moderadoPerda de sensibilidade ou doença arterial com deformidadeA cada 3 a 6 meses
3 – altoJá teve úlcera ou amputaçãoA cada 1 a 3 meses

Fonte: adaptado da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, com base no IWGDF.

O podólogo é um aliado importante nessa rotina. Ele cuida de unhas, calos e calosidades com segurança, orienta sobre calçados e meias e encaminha ao médico quando percebe algum sinal de risco.

Checklist: o que fazer e o que evitar

FaçaEvite
Examinar os pés todos os diasAndar descalço, até em casa
Secar bem entre os dedosDeixar os pés de molho
Hidratar sola, peito do pé e calcanharPassar creme entre os dedos
Cortar as unhas retas ou ir ao podólogoTirar cutícula ou cortar calos em casa
Usar meias claras e sem costuraMeias com elástico apertado
Olhar dentro do sapato antes de calçarSandálias de dedo, bico fino e salto alto
Testar a água com o cotoveloBolsa de água quente nos pés

Perguntas frequentes sobre pé diabético

Todo diabético vai ter pé diabético?

Não. O risco aumenta com o tempo de doença e com a glicemia descontrolada, mas muitas pessoas passam a vida sem úlceras graças ao controle do diabetes e aos cuidados diários.

Diabético pode fazer pedicure?

O ideal é procurar um podólogo, que trabalha com instrumentos esterilizados e técnicas próprias para pés de risco. Retirar cutícula e "cavucar" os cantos das unhas aumenta a chance de infecção.

Posso usar chinelo?

Chinelos de dedo deixam o pé desprotegido e a tira pode machucar entre os dedos. Para quem já tem perda de sensibilidade, a recomendação é usar calçados fechados e adequados, mesmo dentro de casa.

Que tipo de creme é melhor para o pé diabético?

Um hidratante comum ou com ureia em concentração moderada, em torno de 10%, costuma ser suficiente para a pele seca. Cremes muito fortes ou com ácidos só devem ser usados com orientação profissional.

O SUS oferece cuidado para o pé diabético?

Sim. A avaliação dos pés pode ser feita na Unidade Básica de Saúde, e calçados terapêuticos e palmilhas podem ser solicitados para pacientes de risco, com relatório de um profissional de saúde.

Conclusão

O pé diabético é uma complicação séria, mas, na maioria das vezes, pode ser evitada. Olhar os pés todos os dias, manter a pele limpa, seca e hidratada, usar meias e calçados adequados e fazer o exame anual com um profissional são atitudes simples que protegem você de feridas e amputações.

Se você cuida de um familiar com diabetes, compartilhe este guia com ele. Às vezes, um par de olhos a mais é o que faz a diferença.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com médico, enfermeiro ou podólogo. Em caso de ferida, mudança de cor ou inchaço nos pés, procure atendimento.

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Fontes e referências

Aviso: conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta presencial, avaliação de podólogo ou médico, nem as orientações do fabricante e da Vigilância Sanitária. Veja o disclaimer médico. Links de produtos podem ser de afiliados — veja nossa divulgação.
Gelson Junior, editor do Podologia Digital

Gelson Junior — editor do Podologia Digital

Escreve sobre gestão, documentos, marketing e equipamentos para podólogos. Os conteúdos de saúde dos pés são orientados e revisados por Angelice Santos, podóloga formada pela Faculdade Senac RN. Fontes oficiais citadas ao final de cada artigo.

Angelice Santos, podóloga
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